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sexta-feira, 27 de julho de 2012

HOJE É DIA DE FAXINA


Hoje é dia de faxina
Hoje é dia de lavar o alpendre
Deixar a água escorrer pelo ralo
Até virar a esquina

Hoje é dia de faxina
Hoje é dia de secar os olhos
Dia de estancar com os próprios punhos
A água com sal que desidrata
Mas que também hidrata meus poros

Hoje é dia de faxina
Dia de aspirar o pó do meu quarto
Pó que não me deixar respirar meu descanso

Hoje é dia de faxina
Dia de aspirar a luz,oxigênio
Dia de voltar a realizar fotossíntese
Emanar claridade

Hoje é dia de faxina
Dia de lavar a roupa suja
Dessa vez proponho um amaciante
Se faltar na dispensa
Esfrego no tanque se for preciso.

Hoje é dia de faxina
Pendurar a roupa pra secar
Se de tudo,  ainda ficaram manchas
Vestirei assim mesmo
Por muito tempo já vesti remendos
Dos males, o pior

Hoje é dia de faxina
Dia de encerar o chão de madeira
Renovar o brilho do marrom avermelhado
Camuflar por tempo indeterminado
Princípios de carunchos e do opaco

Hoje é dia faxina
Destruir a obstrução das artérias
Para o melhor pulsar do meu coração
Parar o melhor pulsar da minha vida

Hoje é dia de faxina
Deixar tudo pronto e limpo, um brinco
Para chegar e se adentrar a imundície
Ou não...

CRISTIANO RABELO

sábado, 21 de julho de 2012

Migalhas

[...]" Eu não estou mais cabendo na minha casa, não estou mais cabendo dentro de mim, dentro do meu corpo, dos meus pensamentos, eu perdi minha paz. Eu perdi minha concentração , eu perdi minha calma e eu preciso operar isso e continuar vivendo. Eu preciso saber se estou sozinho ou acompanhado. Preciso saber se é ilusão, delírio, história que eu inventei... [...] Eu queria que você soubesse que mesmo que não de em nada, já valeu! Já valeu a pena por tudo que eu experimentei assim... assim sozinho. Solidão dos meus pensamentos, dos meus desejos. E tudo isso que estou sentindo fica preso assim por um fio de esperança... [...] E é muito bom, mas eu preciso me libertar disso, preciso me livrar dessa angústia que está me matando, mesmo que eu sofra o resto da vida por esse sentimento que tem sido meu bem, mas que também tem sido o meu mal" [...] 

Manuel Carlos

domingo, 15 de julho de 2012

TRANSTORNOS E DESORDENS

De uns tempos para cá, é cada vez mais forte a tendência a não se ver o indivíduo como responsável pelos próprios atos. No terreno da ciência social esquerdoide, o sujeito é assaltante porque lhe faltaram oportunidades, não teve educação, vive numa sociedade consumista, foi vítima de bullying e mais quantos indicadores se concebam, em pesquisas cujos resultados são definidos pela própria formulação e, muitas vezes, não passam de manipulações pseudoestatísticas, destituídas de base sólida. Enxergam-se relações de causa e efeito inexistentes, que resistem até mesmo à óbvia verdade de que a ampla maioria dos que enfrentaram e enfrentam essas situações não é de delinquentes.

No terreno da psicanálise de boteco, o sujeito surra mulher e filhos porque foi também surrado, principalmente pela mãe. Ou - pois a psicanálise de boteco tem o condão de adaptar suas explicações e a causa que, num exemplo, surte determinado efeito em outro surte efeito contrário - porque não foi surrado e nem sequer advertido e, assim negligenciado pela mãe, nutre amor e ódio pela figura materna, na qual desconta seus recalques baixando a porrada na santa mãe de seus filhos, os quais também apanham porque dividem as atenções da dita figura materna. Ou qualquer outra especulação asnática, das muitas que volta e meia ainda ouvimos.

Agora, por meio da entusiástica colaboração de cientistas, psiquiatras e, principalmente, fabricantes de drogas psicoativas, vamos ingressar definitivamente na era em que qualquer comportamento ou qualquer emoção serão vistos como uma doença mental, no sentido mais lato do termo. Aliás, pouco se tem usado a expressão "doença mental". O chique agora, que repetimos como papagaios bem ensinados, é "transtorno", "desordem" ou "distúrbio". Sabemos que certamente a maioria dos psiquiatros e das psiquiatras, bem como a maioria dos cientistos e cientistas, embora talvez não a maioria dos fabricantes e fabricantas de drogas, não é constituída de enganadores venais e inescrupulosos, que tomam dinheiro dos fabricantes para promover a vendagem bilionária de remédios. Mas muitos e muitas são (está certo, vou parar com este negócio de flexionar os gêneros de tudo, sei que é chato; mas é só porque quero mostrar como certas coisas enfeiam e aleijam nossa já tão perseguida língua portuguesa) e a bandidagem deles combinada vai de vento em popa.

O número de transtornos e desordens aumenta exponencialmente e já se observou que, anunciado um novo mal, de que antes não havia relato, logo surgem novos "pacientes", gente que agora padece de síndromes também antes nunca descritas. E os males do espírito, digamos, muitas vezes não geram sintomas físicos, ou, se geram, são de difícil definição etiológica, de forma que o diagnóstico vira conceitual e subjetivo: eu acho que você está deprimido porque acho que seu quadro configura o que eu acho que é depressão.


Não há mais preguiça, há transtornos ou desordens de atenção, de motivação, de interação social, de tudo o que se possa imaginar. Não há mais agressividade, rudeza no trato, timidez, temperamento calado, nada disso, só há transtornos e desordens. Quando expira a patente de uma droga, seu fabricante se apressa a criar, novamente com a ardorosa colaboração de cientistas e psiquiatras contratados ou subvencionados generosamente, uma nova doença, a que a mesma droga se aplique, mudando apenas de nome. Emoções antes normais em qualquer ser humano podem facilmente revelar-se transtornos ou desordens, conforme o freguês e a moda psiquiátrica corrente. Não se fica mais triste, fica-se deprimido. Não se fica mais ansioso pela antecipação de alguma coisa, fica-se com distúrbios de ansiedade. E para tudo há uma pílula.

Claro, chegaremos, se já não chegamos e ainda não nos demos conta, ao ponto em que todo indivíduo, se confrontado com um hipotético "padrão normal", será portador de vários transtornos, distúrbios e desordens. Qualquer acontecimento que afete suas emoções, seu estado de ânimo ou mesmo seu bem-estar físico deverá ser objeto de controle medicamentoso. Posso até imaginar que talvez já exista, e no futuro poderá prosperar, a figura do PP, o Personal Psychiatrist, não para receitar ou atender no consultório seu cliente milionário, mas para acompanhá-lo ao longo de todo o dia, ministrando-lhe a droga apropriada para a manifestação de qualquer de seus inúmeros distúrbios.

A infância, com a falsa descoberta de um número alarmante de bebês portadores de transtorno bipolar, passou a ser uma doença. Assim como, com toda a certeza, a puberdade, a adolescência, a jovem maturidade, a meia-idade e a velhice. Tudo doença, é claro, bola nisso tudo, bola em toda a existência, você é que pensa que é sadio, é porque não procurou direito sua doença. E, aliás, sugere a prudência que escolhamos logo nossos transtornos, desordens e distúrbios, porque do contrário poderemos estar sujeitos a que escolham por nós. E ninguém escapará, porque o objetivo é englobar toda a Humanidade.

O problema não é a ciência decretar que, de uma forma ou de outra, somos todos malucos. Isso todo mundo às vezes pensa. O problema é quando decidem qual é a nossa maluquice e nos forçam a uma "normalidade" que não queremos e não temos por que aceitar. A chancela da ciência pode ser adulterada. E não é impossível que, em determinadas situações, divergências com o Estado, ou com grupos de poder, acarretem muito mais que censura às artes e à imprensa. Podemos ser forçados a agir "normalmente" e considerados insanos, se discordarmos da normalidade oficial. Na União Soviética, houve tempo em que quem divergia do Estado era carimbado como doido varrido e encafuado num hospício. Tenho medo de não me encaixar na portaria da Anvisa que defina a normalidade e ser obrigado a tomar um Abestalhol por dia.


por JOÃO UBALDO RIBEIRO

segunda-feira, 9 de julho de 2012

TROFÉU EXISTENCIAL

Certos sentimentos ruins
Escolhemos [in]conscientemente [re]viver
E desfilar com eles por aí
Como um troféu
Com uma boa pitada de histeria a lá Freudiana
To escolhendo reviver
To escolhendo ressentir
To escolhendo angustiar-me
To escolhendo sofrer
Há um gozo aí que eu ainda não encontrei
Mas quero reencontrar a paz de junho...
Se assim for, Estarei feliz.
Deus meu, se eu não encontrar o gozo na mágoa
Resgata-me antes que eu me afogue
Ná agua
Na lágrima
Na bagunça
Nas minhas defesas mecânicas

"Você me bagunça, tumultua todo o meu ser" OTM

Cristiano Rabelo