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terça-feira, 2 de julho de 2013

Eu não sou 12 por 8

Eu que ainda não me graduei
É assim que está meu coração
Da colação rumo à profissão

Eu que nunca nem torci
É assim que está meu coração
Final de copa com emoção

E eu que ainda nem morri
É assim que bate meu coração
Entre suspiros e palpitação

E eu que muito menos nem briguei
É assim meu sangue em circulação
Corre como um risco em agressão

E eu que nunca fui inconstante
É assim que agem meus sintomas
Nas palavras mais discrepantes
Na falta delas
No português mais correto:
Nas perguntas que calo!

O que me falta entre os lábios
Sobram nas pontas dos dedos
No sorriso do meu olhar
No suor de todas as curvas
No postergar da minha obsessão
Nos pênaltis que não marco
No 18 por 10 que não cicatriza

Assim é que eu quero
Assim que encontro meu gozo
Faltando na direção
Sobrando nos sentidos
Mas o juiz precisa apitar

Game over

quarta-feira, 19 de junho de 2013

FELICIDADE

Por Sérgio Vaz

 As coisas não nasceram para dar certo, somos nós é que fazemos as coisas acontecerem, ou não. Acredito que a gente tem que ter um foco a seguir, traçar metas, viver por elas. Ou morrer tentando.
Jamais queimar etapas e saber reconhecer quando é a sua hora. O Acaso é uma grande armadilha e destrói os sonhos fracos de pessoas que se acham fortes.
Procure não passar do tempo e nem chegar antes. Preparar o corpo, o espírito, estudar o tempo o espaço. Não ser escravo de nenhum dos dois.
Observe as coisas que interferem no seu dia e na sua noite. E saiba entender que há aqueles sem sol e sem estrelas e que a vida não deve parar só por isso. Seja gentil com as pessoas e consigo mesmo. E gentileza não tem nada a ver com fraqueza, pois, assim como um bom espadachim, é preciso ter elegância para ferir seus adversários.
O que adianta uma boca grande e um coração pequeno. Nunca diga que faz, se não faz.
Ame o teu ofício como uma religião, respeite suas convicções e as pratique de verdade, mesmo quando não tiver ninguém olhando. Milagres acontecem quando a gente vai à luta.
Pratique esportes como arremesso de olhar, beijo na boca, poema no ouvido dos outros, andar de mãos dadas com a pessoa amada, respirar o espaço alheio, abraçar sonhos impossíveis e elogios à distância. E, em hipótese alguma, tente chegar em primeiro. Chegar junto é melhor, até porque, o universo não distribui medalhas nem troféus.
Respeite as crianças, todas, inclusive aquela esquecida na sua memória. Sem crianças não há razão nenhuma para se acreditar num mundo melhor. As crianças não são o futuro, elas são o presente, e se ainda não aprendemos com isso, somos nós, os adultos, é que tiramos zero na escola.
Ser feliz não quer dizer que não devemos estar revoltados com as coisas injustas que estão ao nosso redor, muito pelo contrário, ter uma causa verdadeira é uma alegria que poucos podem ter. Por isso, sorrir enquanto luta, é uma forma de confundir os inimigos. Principalmente os que habitam nossos corações.
E jamais se sujeite a ser carcereiro do sorriso alheio. Não deixe que outras pessoas digam o que você deve ter, ou usar. Ter coisas é tão importante como não tê-las, mas é você quem deve decidir. Ter cartão de crédito é bom, porém, ter crédito nele tem um preço.
Se possível, aprecie as coisas simples da vida, vai que no futuro… Adeus pertences. Esteja sempre disposto ao aprendizado, e não se esqueça que, quem já sabe tudo é porque não aprendeu nada.
As ruas são excelentes professoras de filosofia, pratique andar sobre elas.
Procure desvendar as máscaras do dia a dia, pois o segredo está no minúsculo - assim como um belo espetáculo do crepúsculo, no pequeno gesto das formiguinhas esconde a grandeza a ser seguida pela humanidade.Tenha amigos. Se não tem, seja. Eles virão. Felicidade não se ensina, é uma magia, e o segredo está na disciplina de uma vida sem truques e sem fogos de artifícios.
E não acreditem em poetas. São pessoas tristes que vendem alegria.

*Do livro "Literatura, pão e poesia" Global Editora

domingo, 16 de junho de 2013

É proibido chorar


Em um dos textos anteriores em que eu falava sobre as dificuldades de lançar meu livro, e ao mesmo tempo, suportar as dores diárias da sobrevivência, muita gente se identificou com a minha luta. 
Nenhuma surpresa nisso, pois desde que nascemos, as pedras se espreitam em nosso caminho. E a briga pelo leite, o choro, já era o nosso grito de que não aceitaríamos tudo calado. Infelizmente alguns deixaram de gritar, por isso, choram até hoje.
Não tenho dó de quem sofre, tenho raiva de quem faz sofrer.
Sei de vários que estão na luta e merecem o meu e o nosso respeito: são os quixotes da periferia, das ruas.
Não só os da periferia geográfica, mas todos os que vivem no centro do esquecimento da humanidade, quer seja artista(?) ou não. Aliás, ser artista neste país não é um privilégio e sim um castigo, não sei porque tem tanta gente metida a besta só por conta disso.
Tristes figuras. Às vezes os vejo por aí, os guerreiros, correndo atrás de sonhos e também me vejo neles, sou um deles também, nunca deixei de sonhar, coleciono pedras, mas também semeio quimeras. Vejo e me identifico com a luta, outras vezes, observo-os em silêncio e penso no que será que eles estão pensando, ou como deve ser a casa deles, e na maioria das vezes, quantos inimigos devem ter, e a única coisa que tenho certeza e sei, é sobre os que eles comem: poeira e lama.
Seja procurando um emprego no centro da cidade, um cd demo debaixo do braço, uns poemas numas folhas de sulfites amareladas e sujas ou um simples bico de pedreiro, boa parte desses guerreiros passam a vida lutando e não se importam com as portas pesadas que cada vez se fecham mais, para a nossa gente que nasce sem as chaves certas e programadas.
A chave de tudo é não desistir, não há outra saída que não a ousadia, perseverança e a teimosia.
Devíamos abolir a palavra “covardia” do dicionário. Devíamos proibi-la de ser mencionada em nossos lares, nas ruas, nas escolas, nas praças e em todo o país. Medo não é covardia. Não enfrentar o medo é que é covardia.
Chega de contar os mortos muitos deles vivos entre nós. A hora é de alimentar a vida e evitar a água potável que nos servem no conforto do lar, vamos matar a sede na fonte dos rios, lá onde bate o coração daqueles que não se entregam antes da luta. Lágrimas não enchem barriga e as desculpas são sempre as mesmas, e o que é pior, são sempre os mesmos nos muros das lamentações.
Vamos derrubar o muro, agora! Está proibido chorar sem lutar. Está proibido chorar se não for por momentos de felicidade.
Não dá mais pra esperar, as quebradas estão mais quebradas do que nunca e precisamos estar inteiros para consertá-las.
Agora é a hora!
Está proibido também dar o ombro para o outro chorar, que vá chorar no inferno ou no raio que o parta. Temos que andar com os braços abertos: Uma mão para puxar quem está atrás, e a outra, para segurar na mão de quem está na frente.
Arregace as mangas e não esqueça que os covardes são presas fáceis para o destino.

Por Sérgio Vaz
Do livro "Literatura, pão e poesia" Global Editora

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Duas camas de solteiro formam um cavalheiro

A privação cria um cavalheiro.

A renúncia prepara românticos.

O egoísta jamais será educado. O narcisista jamais será educado. O megalomaníaco jamais será educado.

...
A virtude masculina consiste em ser o segundo, em vir depois, em não priorizar os próprios luxos.

Quem procura se beneficiar antes não será um macho de verdade. Sempre vai abandonar ou fugir de um romance.

Amor é ter altivez dentro da humildade. É ceder sem medo de existir.

Homem que nunca lavou louça não saberá o que é se cortar no amor. O homem que nunca cozinhou não saberá o que é se queimar no amor. Homem que nunca passou roupa não saberá o que é rasgar uma promessa.

Só podemos oferecer o que somos. Só podemos imaginar o que um dia tentamos.

Nas pequenas tarefas, surgem os grandes maridos. Não subestime a epopeia da banalidade.

É difícil ser gentil. A gentileza é uma coragem, um refinamento da experiência. Árduo quem não depende do medo para ajudar, quem oferece o que tem antes que alguém precise.

O heroísmo amoroso começa na adolescência. Exatamente quando o jovem dormirá pela primeira vez com a namorada em seu quarto e decide juntar duas camas de solteiro.

Ali nasce a delicadeza no rosto barbudo. Ali germina a sutileza na feição baldia.

A cena fundadora do lirismo viril reside no momento em que o homem abandona o posto de filho, de dependente, e assume a independência de cuidar do outro.

Não há nada mais comovente do que um garoto que adormece no meio da madeira para permitir que sua amada durma no canto acolchoado.

É um gesto carinhoso de fazer e não falar. De zelar e não cobrar na manhã seguinte.

Diria que é neste instante que o adolescente se torna adulto.

Ele disfarça a dificuldade material com seu gesto, contorna sua pobreza com ternura.

Não está se destacando nem aparecendo. De modo inédito, mergulha na sombra, conhece o valor da retaguarda, sofre calado para não vê-la sofrer.

Com seu corpo, cobre o descompasso, o desnível, a divisão entre os dois colchões.

Não reclama da frieza da brecha, não lamenta as dores nas costas.

O que valoriza é estar junto, respirando perto, soprando os sonhos para o mesmo lado.

Um homem se mostra sensível quando não pensa somente nele, e passa a levantar de sua nudez uma ponte dos suspiros dela.

Fabrício Carpinejar

Canção pra Ti

CANÇÃO PRA TI

 Ana Carolina / Moreno Veloso / Carlos Rennó

Por te querer de cara e coracão
Preciso te fazer uma canção
Que seja bela, que se possa amar
Como um golaço, um passe de Neymar
Como um passo do Grupo Corpo no ar
... O cello de Jaques Morelenbaum
A rima e o ritmo de Mano Brown
Em cada frase, estrofe e no refrão
Será que eu sou capaz de tal canção?
Que tenha algo em excesso ou algo excelso
Como uma peça, um ato de Zé Celso
Como um poema de Augusto de Campos
Ou como um rock de Arnaldo Antunes
Que toque nos ipods e no i tunes
E tenha graça como o Zé Simão
Será que eu sou capaz de tal canção?
Que valha o investimento de neurônios
Como o cimento de Antonio Ermírio
Como um cenário de HelioEichbauer;
De verso-power, como um pau ereto
Um pensamento de Antonio Cícero
O dicionário de Antônio Houaiss
E acenda em ti o sol no coração

Será que eu sou capaz de tal canção?
Que revele um requinte em mots et son
Como um desfile de Gisele Bundchen
Como uma foto de Bob Wolfenson
Como o gênio de Rogério Duarte
Como um ensaio de Risério, Antonio
Mistura de mistério e clarão
Preciso te fazer essa canção?
Que luza qual poema em raio laser
Como a ciência de Marcelo Gleiser
O axé de Mãe Carmen do Gantois
O fôlego e a yoga de Iyengar
E a palavra chave de Kikuchi
Que um outro escute com muita atenção
Será que eu sou capaz de tal canção?
Que alegre e que comova no seu auge
Como o cinema de Pedro Almodóvar
Como a Tanztheater de Pina Bausch
Como a chegada da Estação Primeira
Como a saída do Ilê Ayê
E um querer que não acaba, não
Será que eu sou capaz de tal canção?
Na qual não haja nada fosco ou tosco
Como um artigo de Francisco Bosco
Como uma estampa de Alberto Pitta

Como uma atuação de João Miguel
E uma edição de Luiz Schwarcz
Do todo com as partes na relação
Será que eu sou capaz de tal canção?
Que seja foda, aguda, fina, chique
Como um livro de Miguel Wisnik
E a moda na São Paulo Fashion Week
E fique no youtube e se remixe
E passe como tudo mas se fixe
Eu te quero tanto, com tanta paixão
Que é capaz de eu ser capaz de tal canção?

segunda-feira, 20 de maio de 2013

O QUE É?

por: Cristiano Rabelo

É uma vaidade desenhada

Uma beleza recortada

A atenção que conforta

A música que discursa

O cambalear que me atenta

O andar que me sustenta

O falar que introduz

O combustível que me conduz

A ignição que interrompeu

O vermelho que excita

O des-carregar que exercita

O jogo de livre partida

A entrelinhas que não se desvenda

O tempo que eu penso

A melodia que eu canto

A nota convertida em pranto

A saliva em que eu me afogo

Teu sabor que ainda não provo

Teu repouso que contemplo

Teu porte em que me acho

Tão compacto que me encaixa

Teu descanso que me cansa

O sorriso dos seus olhos

O acorde que me acorda

E também a soberba que me enfurece

Mas tudo faz parte, faz desejo, faz amor...

sábado, 30 de março de 2013

O apaixonado...

O apaixonado tem exclusividade. Não se interessa por mais ninguém, nem por ele.

O apaixonado só tem vontade de deitar para o dia correr rápido, mas não dorme.

O apaixonado repete a mesma história. Repetir é uma forma de diminuir a saudade.

O apaixonado finge que trabalha, finge que come, finge que escuta.

O apaixonado não tem mais amigos, apenas cúmplices.

O apaixonado é um refém que pede para ser sequestrado.

O apaixonado suspira como quem beija, beija como quem suspira.

O apaixonado não lê notícias, apenas espera torpedos.
 
Por: Fabrício Carpinejar

sábado, 16 de março de 2013

Sim ou Não?



por: Fabrício Carpinejar
É sim ou não. Serão três letras para o fim ou para o início. Sim ou não?

Não aceito que diga que está cheia de preocupações e que não é o melhor momento

Não peça mais tempo para pensar, tempo não é sabedoria, tempo é adiamento.

Dou tempo para arrumar o cabelo, não dou tempo para arrumar a cabeça.

Não me diga que não tem como me fazer compreender, ou que não pode me fazer esperar.

A despedida é uma aula de desculpas, não revela o que sentimos.

O aceno tem que ser trinco, senão é mero cumprimento. O aceno abre ou fecha portas.

Não venha alegar que sou especial e pretende continuar do jeito que está. A comodidade esvazia a urgência.

É sim ou não. É definir antes a vida que não quer. Só a renúncia valoriza a escolha.

Preciso perguntar. Não tenho saída. Não ter saída é ficar junto.

É sim ou não.

Não serei compreensivo. Acompanhando sua covardia não lhe darei coragem.

Não serei maduro. A pressão é honestidade. A pressão é fidelidade.

Não venha responder que é cedo para tomar decisões. Já é tarde. Sempre é tarde para quem se necessita.

Deve oferecer sua solidão. A solidão da decisão. É sim ou não.

Sim sim. Não não.

O amor é uma conta exata. Com números quebrados. Nada vai fora depois do sim. Tudo se disfarça depois do não.

Sim sim. Não não.

O beijo tem som de sim, o abraço tem som de não, qual dos dois?

Amar é decidir. Amar é decidir mesmo que seja errado. Não há problema em errar, inventaremos o certo.

Não tenho medo de me arrepender, tenho medo de não ouvir o meu desejo pela ânsia de falar. Tenho medo de não deixar meu corpo falar.

É sim ou não. Terá que escolher um lado. Fugir do encaixe da cabeça nos ombros ou me amarrar em tuas pernas.

Sim ou não. É agora. O grande problema é o pânico de responder na hora.

Mas não agir é não me escolher. Não decidir é decidir também. É dizer não fazendo o sim.

Eu espero o sim do sim ou o não do não. A grande certeza para vivermos tranquilamente nossas pequenas dúvidas.

domingo, 3 de março de 2013

Religião e espiritualidade

O mundo religioso é mestre em fazer a cabeça dos outros. Por isso cada vez mais me convenço que o Cristianismo implica a superação da religião, e cada vez mais me dedico a pensar nas categorias da espiritualidade, em detrimento das categorias da religião.
A religião está baseada nos ritos, dogmas e credos, tabus e códigos morais de cada tradição de fé. A espiritualidade está fundamentada nos conteúdos universais da Bíblia e de cada uma das tradições de fé.
Quando você começa a discutir quem vai para o céu e quem vai para o inferno, ou se Deus é a favor ou contra à prática do homossexualismo, ou mesmo se você tem que subir uma escada de joelhos ou dar o dízimo na igreja para alcançar o favor de Deus, você está discutindo religião.
Quando você começa a discutir se o correto é a reencarnação ou a ressurreição, a teoria de Darwin ou a narrativa do Gênesis, e se o livro certo é a Bíblia ou o Corão, você está discutindo religião.
Quando você fica perguntando se a instituição social é espírita kardecista, evangélica, ou católica, você está discutindo religião.
O problema é que toda vez que você discute religião você afasta as pessoas umas das outras, promove o sectarismo e a intolerância.
A religião coloca de um lado os adoradores de Allá, de outro os adoradores de Yahweh, e de outro os adoradores de Jesus. Isso sem falar nos adoradores de Shiva, de Krishna e devotos do Buda, e por aí vai.
E cada grupo de adoradores deseja a extinção dos outros, ou pela conversão à sua religião, o que faz com que os outros deixem de existir enquanto outros se tornem iguais a nós, ou pelo extermínio através do assassinato em nome de Deus, ou melhor, em nome de um deus, com d minúsculo, isto é, um ídolo que pretende se passar por Deus.
Mas quando você concentra sua atenção e ação, sua práxis, em valores como reconciliação, perdão, misericórdia, compaixão, solidariedade, amor e caridade, você está no horizonte da espiritualidade, comum a todas as tradições religiosas. E quando você está com o coração cheio de espiritualidade, e não de religião, você promove a justiça e a paz.
Os valores espirituais agregam pessoas, aproxima os diferentes, fazem com que os discordantes no mundo das crenças se deem as mãos no mundo da busca de superação do sofrimento humano, que a todos nós humilha e iguala, independentemente de raça, gênero, e inclusive religião.

René Kivitz, pastor evangélico

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Salve Jovens



Livremente inspirado no texto base da Campanha da Fraternidade 2013 e nas homenagens oferecidas aos jovens que morreram tragicamente na cidade de Santa Maria/RS.


Salvem os jovens que levam uma vida desregrada por não conhecerem a palavra de Deus.
Salvem os jovens universitários da mídia torpe que visitam suas moradias no momento que festejam e são percebidos como baderneiros.
Salvem os jovens que tem sua vida interrompida pela negligência de pessoas mal instruídas.
Salvem os jovens das drogas que roubam sua verdade, sua autonomia e sua realidade.
Salvem os jovens da opressão que rouba seu propósito de vida, seus ideais e sua determinação.
Salvem os jovens das cotas que subestimam sua sabedoria e intelectualidade.
Salvem os jovens que assistem com terror sua família acabar por falta de amor, compreensão e companheirismo.
Salvem os jovens que desistem de viver arruinados pela depressão.
Salvem os jovens dos rótulos impostos pela sociedade pelo sotaque que usam, pela comunidade onde moram e pela cor de pele que possuem.
Salvem os jovens que abandonam a casa dos pais e a Casa de Deus.
Salvem os jovens do sistema de educação que aprisiona e que não ensina questionar ofuscando seu saber.
Salvem os jovens da violência física, verbal e moral.
Salvem os jovens que tem a vida perdida pela bala perdida.
Salvem os jovens que tem o corpo vendido e seus valores esquecidos.
Salvem os jovens que confundem liberdade com libertinagem.
Salvem os jovens que tem a mente corrompida pela mídia deturpadora.
Salvem os jovens que se abdicam de responsabilidade e das tomadas de decisões.
Salvem os jovens que optam por uma vida pródiga e inconseqüente.
Salve os jovens de tudo e todos que os influenciam a se afastarem do amor de Jesus.
Cristiano Rabelo Marques

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O GRITO


Não sei o que está acontecendo comigo, diz a paciente para o psiquiatra.
Ela sabe.
Não sei se gosto mesmo da minha namorada, diz um amigo para outro.
Ele sabe.
Não sei se quero continuar com a vida que tenho, pensamos em silêncio.
Sabemos, sim.
Sabemos tudo o que sentimos porque algo dentro de nós grita. Tentamos abafar esse grito com conversas tolas, elucubrações, esoterismo, leituras dinâmicas, namoros virtuais, mas não importa o método que iremos utilizar para procurar uma verdade que se encaixe em nossos planos: será infrutífero. A verdade já está dentro, a verdade se impõe, fala mais alto que nós, ela grita.
Sabemos se amamos ou não alguém, mesmo que esteja escrito que é um amor que não serve, que nos rejeita, um amor que não vai resultar em nada. Costumamos desviar esse amor para outro amor, um amor aceitável, fácil, sereno. Podemos dar todas as provas ao mundo de que não amamos uma pessoa e amamos outra, mas sabemos, lá dentro, quem é que está no controle.
A verdade grita. Provoca febre, salta aos olhos, desenvolve úlceras. Nosso corpo é a casa da verdade, lá de dentro vêm todas as informações que passarão por uma triagem particular: algumas verdades a gente deixa sair, outras a gente aprisiona e finge esquecer. Mas há uma verdade única : ninguém tem dúvida sobre si mesmo.
Podemos passar anos nos dedicando a um emprego sabendo que ele não nos trará recompensa emocional. Podemos conviver com uma pessoa mesmo sabendo que ela não merece confiança. Fazemos essas escolhas por serem as mais sensatas ou práticas, mas nem sempre elas estão de acordo com os gritos de dentro, aquelas vozes que dizem: vá por este caminho, se preferir, mas você nasceu para o caminho oposto. Até mesmo a felicidade, tão propagada, pode ser uma opção contrária ao que intimamente desejamos. Você cumpre o ritual todinho, faz tudo como o esperado, e é feliz, puxa, como é feliz.
E o grito lá dentro: mas você não queria ser feliz, queria viver!
Eu não sei se teria coragem de jogar tudo para o alto.
Sabe.
Eu não sei por que sou assim.
Sabe."

Martha Medeiros

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Não desistam de viver


A vontade é de abandonar o trabalho, não acordar mais, definhar abraçado ao travesseiro, encolher-se no canto e não erguer nem mais o braço para atender a porta e pedir ajuda.

Nada tem mais sentido, e ordem.

A vontade é de não ter mais vontade.

Os filhos morreram, os irmãos morreram, os colegas morreram.

Eu entendo.

Entendo que vocês levantarão, sobressaltados, às duas horas de todas as madrugadas de suas existências, que haverá sempre uma sirene abrindo as ruas do sangue, que será insuportável raciocinar diante de um alarme dos bombeiros ou de ambulância lá fora.

Entendo que a casa está vazia, como a cidade está vazia, como o corpo está vazio.

Mas não podemos chorar a morte dos familiares se não valorizarmos nossa vida.

Entendo que não será mais a vida idealizada, não será mais a vida planejada, não será mais a vida que merecíamos.

Mas ainda que seja uma vida desesperada, uma vida atormentada, uma vida traumatizada, ainda é a nossa vida.

Ainda é a vida que ficou.

Ainda a vida que temos que cuidar.

Ainda é a vida que temos que salvar.

Afinal, nossa vida era tudo o que a gente pretendia assegurar para eles que se foram na boate Kiss.

Gostaríamos que os duzentos e trinta e sete jovens estivessem com a gente, então não podemos nos jogar fora. Não podemos esnobar a chance de estar aqui.

Continuar a viver é preservá-los.

Continuar a viver é sabedoria.

Continuar a viver é fé.

Continuar a viver é humildade.

Continuar a viver é respeito: é não ser mais vítima do que as vítimas, por mais que doa doer o dia inteiro.

É imperioso cortar o cordão umbilical da Rua dos Andradas, abolir as hipóteses: se eu tivesse proibido meu filho de sair, se eu tivesse viajado com a família, se eu tivesse telefonado antes, se eu tivesse sido mais rigoroso...

O “se” não devolve o que perdemos, nem diminui o sofrimento.

A culpa não deve abafar a justiça, o medo não deve sufocar a esperança.

Não há como controlar o destino. A tragédia não aconteceu porque vocês falharam. Vocês, familiares, não teriam como evitá-la.

O que sobra é amar a si para explicar o que é amor, para explicar o que é saudade.

O que nos resta é a responsabilidade de lembrá-los com garra. De lavar as escadarias das igrejas com flores. De ir adiante para que esse incêndio criminoso nunca mais se repita em nenhum lugar do mundo deste Brasil.

Que nossos filhos de Santa Maria jamais morram para a História.


(Fabrício Carpinejar)