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domingo, 16 de junho de 2013
É proibido chorar
Em um dos textos anteriores em que eu falava sobre as dificuldades de lançar meu livro, e ao mesmo tempo, suportar as dores diárias da sobrevivência, muita gente se identificou com a minha luta.
Nenhuma surpresa nisso, pois desde que nascemos, as pedras se espreitam em nosso caminho. E a briga pelo leite, o choro, já era o nosso grito de que não aceitaríamos tudo calado. Infelizmente alguns deixaram de gritar, por isso, choram até hoje.
Não tenho dó de quem sofre, tenho raiva de quem faz sofrer.
Sei de vários que estão na luta e merecem o meu e o nosso respeito: são os quixotes da periferia, das ruas.
Não só os da periferia geográfica, mas todos os que vivem no centro do esquecimento da humanidade, quer seja artista(?) ou não. Aliás, ser artista neste país não é um privilégio e sim um castigo, não sei porque tem tanta gente metida a besta só por conta disso.
Tristes figuras. Às vezes os vejo por aí, os guerreiros, correndo atrás de sonhos e também me vejo neles, sou um deles também, nunca deixei de sonhar, coleciono pedras, mas também semeio quimeras. Vejo e me identifico com a luta, outras vezes, observo-os em silêncio e penso no que será que eles estão pensando, ou como deve ser a casa deles, e na maioria das vezes, quantos inimigos devem ter, e a única coisa que tenho certeza e sei, é sobre os que eles comem: poeira e lama.
Seja procurando um emprego no centro da cidade, um cd demo debaixo do braço, uns poemas numas folhas de sulfites amareladas e sujas ou um simples bico de pedreiro, boa parte desses guerreiros passam a vida lutando e não se importam com as portas pesadas que cada vez se fecham mais, para a nossa gente que nasce sem as chaves certas e programadas.
A chave de tudo é não desistir, não há outra saída que não a ousadia, perseverança e a teimosia.
Devíamos abolir a palavra “covardia” do dicionário. Devíamos proibi-la de ser mencionada em nossos lares, nas ruas, nas escolas, nas praças e em todo o país. Medo não é covardia. Não enfrentar o medo é que é covardia.
Chega de contar os mortos muitos deles vivos entre nós. A hora é de alimentar a vida e evitar a água potável que nos servem no conforto do lar, vamos matar a sede na fonte dos rios, lá onde bate o coração daqueles que não se entregam antes da luta. Lágrimas não enchem barriga e as desculpas são sempre as mesmas, e o que é pior, são sempre os mesmos nos muros das lamentações.
Vamos derrubar o muro, agora! Está proibido chorar sem lutar. Está proibido chorar se não for por momentos de felicidade.
Não dá mais pra esperar, as quebradas estão mais quebradas do que nunca e precisamos estar inteiros para consertá-las.
Agora é a hora!
Está proibido também dar o ombro para o outro chorar, que vá chorar no inferno ou no raio que o parta. Temos que andar com os braços abertos: Uma mão para puxar quem está atrás, e a outra, para segurar na mão de quem está na frente.
Arregace as mangas e não esqueça que os covardes são presas fáceis para o destino.
Por Sérgio Vaz
Do livro "Literatura, pão e poesia" Global Editora
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